Informação na Saúde
AMPA: “já é tempo de oferecer a esse método o valor que ele merece”.
Foi com esse comentário, que George Stergiou iniciou o editorial do Hypertension (maio de 2010), fazendo referencia à publicação do Estudo Finn-Home, realizado na população geral da Finlândia, que utilizou medidas residenciais para avaliar desfecho cardiovascular.
Na última década, cresceu em todo o mundo a certeza de que medidas de pressão arterial, realizadas longe dos ambientes dos consultórios, e utilizando para essa finalidade equipamentos digitais que medem a pressão arterial por oscilometria, podem ajudar no diagnóstico da hipertensão por caracterizar duas situações relativamente comuns: hipertensão do avental branco e hipertensão mascarada. Também podem dimensionar o chamado efeito do avental branco e o efeito mascarado da pressão arterial; auxiliar no acompanhamento do tratamento anti-hipertensivo; melhorar a adesão ao tratamento; e, com indiscutíveis utilidades em pesquisas clínicas.
As VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão, recentemente publicadas, definem a Automedida da Pressão Arterial (AMPA) como uma possibilidade concreta a ser utilizada na população hipertensa, por entender a sua utilidade e praticidade. Apenas recomenda que diante de um resultado de AMPA, o médico baseie a sua conduta em dois exames já transformados em ferramentas científicas que são: a MAPA e a MRPA. Então, a AMPA ajuda a suspeitar da hipertensão ou do efeito do avental branco, da hipertensão mascarada e do efeito mascarado da hipertensão, mas essa informação deve ser confirmada com um método científico comprovado, que utiliza protocolos e equipamentos recomendados pelas sociedades científicas e validados por protocolos internacionais acreditados, além de terem suas calibrações testadas periodicamente pelos órgãos oficiais de metrologia do país.
Embora a utilidade das medidas da pressão arterial, realizadas fora dos ambientes dos consultórios, já tenha seu valor reconhecido, a comprovação da importância prognóstica dessas medidas, quando comparada com medidas de consultório, ainda é alvo de controvérsias. Os principais estudos realizados na tentativa de oferecer essa resposta tiveram alguns limites, e por isso ofereceram resultados equivocados. As principais limitações dos estudos que procuraram essa associação de medida residencial e valor prognóstico, foram essas: sempre realizados em comunidades fechadas que nem sempre reproduzem vida real; incluíram limitados números de pacientes; foram realizados com selecionadas populações de hipertensos; utilizaram protocolos distintos de medidas de pressão arterial, não estabelecidos por diretrizes; não ofereceram dados robustos de morbidade e ou mortalidade; e, tiveram baixo número de eventos cardiovasculares registrados. Por isso, a AMPA pode não ter sido tão levada a sério pelas diretrizes. Isso não sucedeu com as nossas VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão, que além de reconhecerem a AMPA como uma ferramenta útil, ainda a distinguiu das outras duas metodologias amplamente reconhecidas em nosso país, que são a MAPA e a MRPA.
O estudo Finn-Home recentemente publicado, foi realizado na população geral da Finlândia, com uma média de acompanhamento de 6,8 anos, idade compreendida entre 45 e 74 anos, resultando em 14.081 pessoas/ano de seguimento. Durante o período total de acompanhamento ocorreram 118 mortes (incidência de 8,4/1000 pessoas/ano), e 37 mortes de origem cardiovascular (incidência 2,6/1000 pessoas/ano). No período total de acompanhamento, 163 pacientes tiveram pelo menos 1 evento cardiovascular (incidência 11,5/1000 pessoas/ano).
O estudo Finn-Home foi capaz de elucidar a importância prognóstica das medidas realizadas fora dos consultórios, na morbidade e mortalidade cardiovascular, numa não selecionada população da Finlândia. Os resultados confirmaram que os valores da pressão residencial refletem melhor os verdadeiros valores da pressão arterial, que as medidas de consultório.
A figura 1 mostra o cálculo de risco absoluto em 6,8 anos para todas as causas de mortalidade e de eventos cardiovasculares. O incremento de risco cardiovascular por 1 mm Hg de aumento na pressão arterial, foi maior para a pressão de casa do que para a pressão de consultório. Quando comparado o mesmo risco, determinado pela pressão sistólica e a diastólica medida em casa, a primeira teve maior valor prognóstico.
Para que o “tempo” da AMPA se concretize como uma ferramenta definitiva no auxílio ao diagnóstico e avaliação prognóstica da hipertensão arterial, faz-se necessário caminharmos no sentido de estabelecer um protocolo de medidas que o paciente possa incorporar ao seu dia a dia. Por exemplo: medir a pressão arterial 3 dias antes da visita ao médico, com duas medidas pela manhã antes da tomada do remédio e duas à noite antes do jantar. Configurando um conjunto de 12 medidas (que pode ser transformado em médias sistólica e diastólica, visando facilitar a leitura e interpretação e economizando tempo de consulta). O outro aspecto importante é a utilização de equipamentos calibrados e validados (no estudo Finn-Home foi utilizado o equipamento OMRON modelo HEM-722), que certamente oferecerá confiabilidade aos dados colhidos.
Marco Mota
Médico cardiologista
Recomendações de leituras:
- George s Stergiou, Konstantinos C.M, Siontis, John P.A. Ioannidis: Home Blood Pressure as a Cardiovascular Outcome Predictor: It’s time to take this method seriously. Hypertension. 2010;55;1301-1303.
- Teemu J. Niirenen, Marjo-Riitta Hanninen, Jouni Johansson, Antti Reunanen, Antti M. Jula. Home-Meausured Blood Pressure Is a Strong Predictor of Cardiovascular Risk than Blood Pressure. The Finn-Home Study. Hypertension. 2010;55:1346-1351
- VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão. Revista Brasileira de Hipertensão. volume 17, número 1, janeiro/marco 2010
Cadastro
Faça seu cadastro para receber informações sobre saúde e dicas de nosso especialista.
Cadastre-se aqui